Epigenética e reprodução assistida: como a saúde do espermatozoide pode afetar a saúde do seu filho
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A busca por reprodução assistida costuma concentrar as atenções na qualidade dos óvulos e no preparo do útero, deixando em segundo plano um fator igualmente decisivo: a saúde epigenética do espermatozoide. Um novo artigo científico internacional, publicado na revista Epigenomics sob coordenação do Dr. Jorge Hallak, em colaboração com pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), da Unicamp, da Universidade de Newcastle (Austrália) e da Universidade de Aarhus (Dinamarca), reúne evidências de mais de 130 estudos sobre o tema e propõe um olhar mais completo sobre a infertilidade masculina antes do início de qualquer tratamento.
O que é a epigenética espermática e por que ela importa?
Epigenética é o conjunto de marcas químicas — como a metilação do DNA, modificações em histonas e pequenas moléculas de RNA — que regulam a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA em si. Durante a formação dos espermatozoides, o material genético masculino passa por um intenso processo de reprogramação, essencial para o desenvolvimento saudável do futuro embrião. Quando esse processo é perturbado, o espermatozoide pode transmitir informações alteradas que interferem no desenvolvimento embrionário, mesmo com um DNA aparentemente normal.
Como a ICSI ultrapassa a seleção natural dos espermatozoides?
Na concepção natural e mesmo na fertilização in vitro convencional, o espermatozoide passa por diversas etapas de seleção biológica que privilegiam as células mais saudáveis. Na ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide), técnica que já responde por 70% a 95% dos ciclos de reprodução assistida no mundo, um único espermatozoide é escolhido manualmente pelo embriologista e injetado diretamente no óvulo, ultrapassando essas barreiras naturais de seleção. Isso reforça a importância de uma avaliação minuciosa da qualidade espermática antes do procedimento, já que alterações epigenéticas não são identificadas em um espermograma convencional.
Quais fatores alteram o código epigenético do espermatozoide?
A revisão científica reúne evidências consistentes de que diversos fatores da saúde e do estilo de vida masculino têm impacto direto sobre a epigenética espermática:
Idade paterna avançada (a partir dos 40 anos): associada a maior estresse oxidativo e a alterações em regiões do DNA relacionadas ao neurodesenvolvimento.
Obesidade e padrão alimentar: dietas desequilibradas podem alterar a metilação de genes ligados ao metabolismo, com potencial impacto sobre o peso e a saúde metabólica da criança.
Tabagismo, álcool e outras substâncias: provocam alterações químicas mensuráveis no material genético do espermatozoide, algumas delas persistentes mesmo após a interrupção do hábito.
Estresse psicológico crônico: modifica a composição de pequenos RNAs espermáticos, com possível relação com maior vulnerabilidade emocional na prole.
Varicocele: causa comum de infertilidade masculina, associada a hipometilação do DNA espermático e maior fragmentação genética.
Exposição a toxinas ambientais: poluentes e desreguladores endócrinos também são apontados como fatores de risco.
Estresse oxidativo: o mecanismo central
Entre todos os fatores estudados, o estresse oxidativo aparece como o principal caminho biológico que conecta hábitos de vida, condições clínicas e alterações epigenéticas no espermatozoide. Em níveis fisiológicos, os radicais livres são até necessários para a maturação e a fertilização do espermatozoide. Porém, em excesso — favorecido por varicocele, obesidade, tabagismo e outros fatores —, eles danificam o DNA e comprometem as marcas epigenéticas, já que os espermatozoides possuem defesas antioxidantes limitadas.
Quais os riscos para o bebê?
Os autores são claros ao afirmar que o risco absoluto de distúrbios genéticos e epigenéticos em crianças concebidas por reprodução assistida ainda é considerado baixo, e diversos estudos não encontram diferenças epigenéticas significativas entre bebês concebidos por ART e por via natural. Ainda assim, a revisão aponta que alterações específicas em genes de imprinting genômico podem, em alguns casos, aumentar o risco de condições relacionadas ao metabolismo, ao neurodesenvolvimento e à saúde reprodutiva futura da criança — reforçando a importância da prevenção antes do tratamento, e não apenas do seu monitoramento posterior.
Como reduzir os riscos antes da reprodução assistida?
A recomendação dos autores é clara: uma avaliação andrológica completa deve preceder qualquer procedimento de reprodução assistida, especialmente em casos de infertilidade masculina. Essa avaliação pode incluir:
Análise de fragmentação do DNA espermático e, quando indicado, avaliação epigenética.
Investigação e correção de causas tratáveis, como a varicocele.
Ajustes no estilo de vida — alimentação, atividade física, cessação do tabagismo e do consumo de álcool.
Terapia antioxidante personalizada, guiada por exames específicos de estresse oxidativo.
Reavaliação hormonal, quando necessária.
Conclusão: a fertilidade masculina merece atenção antes da FIV
A saúde reprodutiva masculina não deve ser tratada como uma etapa secundária no processo de reprodução assistida. Investir em um diagnóstico completo e em estratégias para otimizar a qualidade espermática antes da FIV ou da ICSI não apenas aumenta as chances de sucesso do tratamento, como também representa um cuidado ativo com a saúde das próximas gerações.
Deseja avaliar a sua fertilidade e a saúde reprodutiva de forma completa antes de iniciar um tratamento de reprodução assistida? Agende uma consulta com a equipe do Dr. Jorge Hallak.
Referência científica:
Hallak J, Teixeira TA, Gismondi JPM, Pato EZS, Aitken RJ, Pasqualotto FF, Esteves SC. Assessing the epigenetic consequences of ART in male infertility: what risks to embryo and offspring health? Epigenomics. 2026;18(2):255–267. doi: 10.1080/17501911.2026.2633977




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